Pintura disponivel
Dimenções: 40x49cm
Acrilico sobre tela
Valor: 70€
Um grande urso chamado Boris vagueava sozinho pela floresta, envolto numa
densa camada de neve, o seu pelo espesso e castanho já não era suficiente
para afastar o frio intenso que parecia penetrar os seus ossos… E a fome,
essa, também o acompanhava a cada passo dado, como uma testemunha
silenciosa da sua busca desesperada por algo que saciasse o seu estômago
vazio.
Certo dia, enquanto explorava a vastidão da floresta onde nasceu, mas ainda
assim não conhecia por completo, avistou uma pequena clareira onde uma
casa peculiar se destacava da vegetação. Oh, era uma casa de raposas, ou
melhor dizendo, uma toca aconchegante, construída de pequenos ramos de
árvore, folhas e raízes. À medida que se aproximava do local, um cheiro
intenso de comida deliciosa entrava pelas suas narinas adentro sem pedir
licença… os seus instintos naturais de predador aguçavam-se, estava pronto
para a “matança e comilança”, tal e qual o seu falecido pai-urso lhe ensinara!
Atacar as raposas e tomar a toca para si era o plano... No entanto, ao
aproximar-se e conseguir observar mais de perto, percebeu algo notável, e
que na verdade, o desarmou por completo: a maioria das raposas ainda eram
pequeninas, com olhos grandes e inocentes, pelugem brilhante e faziam
barulhos engraçados (como que risos sinceros). Pareciam uma família unida,
compartilhando o calor da toca e dividindo a pouca comida que tinham. Boris,
apesar da sua fome, sentiu uma estranha empatia ao ver o carinho e a união
entre a mãe, o pai e os seus filhotes... pois todo aquele cenário reavivou
memórias da sua família, o pai-urso falecido e a mãe-ursa perdida. E então, em
vez de agir por instinto, tomou uma decisão surpreendente (até pra si mesmo!)
Desistiu de atacar, mas mesmo assim aproximou-se da toca e rugiu, bem alto
e com firmeza, chamando a atenção de todas as raposas! Estas inicialmente
assustadas, olharam para o imponente urso com medo nos olhos, o coração a
mil e o corpo gelado... Boris, no entanto, em seguida abaixou a cabeça em
sinal de respeito, e com uma série de grunhidos e rugidos suaves, comunicou
com as raposas na linguagem da floresta que não pretendia magoá-las,
percebendo a surpreendente atitude do urso e a sua sinceridade, as raposas
começaram a acalmar-se. Em lugar de predador, o grande urso castanho
transformou-se em algo inesperado... um protetor: caçando para as raposas,
trazendo-lhes alimento abundante e, protegendo-as das garras de outros
predadores. À noite, todos juntos, compartilhavam o calor da toca e a
comidinha caçada durante o dia. Com o passar do tempo, o grande-urso
tornou-se parte daquela pequena família improvável, mas que agora o
adorava.
Boris observou o sol a despontar por entre as copas das árvores, pintando a
neve de dourado, e sentiu no peito uma alegria nova, mais quente do que
qualquer raio de sol. Logo que as raposas despertaram, o urso encurvou-se
perante elas, num gesto tão terno que parecia quase humano, e ofereceu o
primeiro dos muitos presentes daquela manhã: um ninho de ovos quentinhos,
conseguido com cuidado entre as rochas geladas do ribeiro... As pequenas
raposas, ainda sonolentas, enroscaram-se em torno dele, abanando o rabo
num agradecimento silencioso que encheu o urso de orgulho.
Com o desenrolar das estações, a união daquele grupo improvável foi ficando
mais forte do que as raízes dos carvalhos mais velhos. Quando a neve
derreteu e os primeiros brotos verdes surgiram, Boris guiou as raposas até
prados secretos, onde aprendiam a reconhecer plantas medicinais e a brincar
nas margens dos riachos. Era agora o guardião dos segredos da floresta, e as
raposas, por sua vez, mostravam-lhe atalhos escondidos, clareiras onde os
frutos eram mais doces e fontes onde a água corria cristalina.
Numa noite de lua cheia, com o céu salpicado de estrelas, Boris sentiu pela
primeira vez, desde pequeno, a presença reconfortante da sua família, sentou-
se junto à toca, rodeado pelos olhares gratos daqueles que assegurara e
protegera, e deitou-se, sentindo o corpo a descansar num calor partilhado.
Naquele instante, percebeu que a verdadeira força não vinha apenas das suas
garras poderosas, mas do amor que florescia em cada coração, fosse ele
revestido de pelo castanho ou de pelugem alaranjada.
E foi assim que a lenda de Boris, o Urso Protetor, se espalhou para além dos
limites da floresta, enchendo-se de histórias sobre o urso gentil que escolheu
a compaixão em vez da crueldade, contada pelos uivos dos lobos, sussurrada
pelos ventos da montanha e cantada pelas águas dos ribeiros. As raposas,
por sua vez, aprenderam que é possível encontrar amigos nos lugares mais
inesperados, e, nem sempre aquele que mais parece diferente de nós,
realmente o é... E por todo o reino selvagem passou a ecoar uma mensagem
simples, mas profunda: mesmo na solidão mais gelada, o calor da amizade e
da compaixão pode transformar até o mais temível predador no mais dedicado
dos companheiros.
densa camada de neve, o seu pelo espesso e castanho já não era suficiente
para afastar o frio intenso que parecia penetrar os seus ossos… E a fome,
essa, também o acompanhava a cada passo dado, como uma testemunha
silenciosa da sua busca desesperada por algo que saciasse o seu estômago
vazio.
Certo dia, enquanto explorava a vastidão da floresta onde nasceu, mas ainda
assim não conhecia por completo, avistou uma pequena clareira onde uma
casa peculiar se destacava da vegetação. Oh, era uma casa de raposas, ou
melhor dizendo, uma toca aconchegante, construída de pequenos ramos de
árvore, folhas e raízes. À medida que se aproximava do local, um cheiro
intenso de comida deliciosa entrava pelas suas narinas adentro sem pedir
licença… os seus instintos naturais de predador aguçavam-se, estava pronto
para a “matança e comilança”, tal e qual o seu falecido pai-urso lhe ensinara!
Atacar as raposas e tomar a toca para si era o plano... No entanto, ao
aproximar-se e conseguir observar mais de perto, percebeu algo notável, e
que na verdade, o desarmou por completo: a maioria das raposas ainda eram
pequeninas, com olhos grandes e inocentes, pelugem brilhante e faziam
barulhos engraçados (como que risos sinceros). Pareciam uma família unida,
compartilhando o calor da toca e dividindo a pouca comida que tinham. Boris,
apesar da sua fome, sentiu uma estranha empatia ao ver o carinho e a união
entre a mãe, o pai e os seus filhotes... pois todo aquele cenário reavivou
memórias da sua família, o pai-urso falecido e a mãe-ursa perdida. E então, em
vez de agir por instinto, tomou uma decisão surpreendente (até pra si mesmo!)
Desistiu de atacar, mas mesmo assim aproximou-se da toca e rugiu, bem alto
e com firmeza, chamando a atenção de todas as raposas! Estas inicialmente
assustadas, olharam para o imponente urso com medo nos olhos, o coração a
mil e o corpo gelado... Boris, no entanto, em seguida abaixou a cabeça em
sinal de respeito, e com uma série de grunhidos e rugidos suaves, comunicou
com as raposas na linguagem da floresta que não pretendia magoá-las,
percebendo a surpreendente atitude do urso e a sua sinceridade, as raposas
começaram a acalmar-se. Em lugar de predador, o grande urso castanho
transformou-se em algo inesperado... um protetor: caçando para as raposas,
trazendo-lhes alimento abundante e, protegendo-as das garras de outros
predadores. À noite, todos juntos, compartilhavam o calor da toca e a
comidinha caçada durante o dia. Com o passar do tempo, o grande-urso
tornou-se parte daquela pequena família improvável, mas que agora o
adorava.
Boris observou o sol a despontar por entre as copas das árvores, pintando a
neve de dourado, e sentiu no peito uma alegria nova, mais quente do que
qualquer raio de sol. Logo que as raposas despertaram, o urso encurvou-se
perante elas, num gesto tão terno que parecia quase humano, e ofereceu o
primeiro dos muitos presentes daquela manhã: um ninho de ovos quentinhos,
conseguido com cuidado entre as rochas geladas do ribeiro... As pequenas
raposas, ainda sonolentas, enroscaram-se em torno dele, abanando o rabo
num agradecimento silencioso que encheu o urso de orgulho.
Com o desenrolar das estações, a união daquele grupo improvável foi ficando
mais forte do que as raízes dos carvalhos mais velhos. Quando a neve
derreteu e os primeiros brotos verdes surgiram, Boris guiou as raposas até
prados secretos, onde aprendiam a reconhecer plantas medicinais e a brincar
nas margens dos riachos. Era agora o guardião dos segredos da floresta, e as
raposas, por sua vez, mostravam-lhe atalhos escondidos, clareiras onde os
frutos eram mais doces e fontes onde a água corria cristalina.
Numa noite de lua cheia, com o céu salpicado de estrelas, Boris sentiu pela
primeira vez, desde pequeno, a presença reconfortante da sua família, sentou-
se junto à toca, rodeado pelos olhares gratos daqueles que assegurara e
protegera, e deitou-se, sentindo o corpo a descansar num calor partilhado.
Naquele instante, percebeu que a verdadeira força não vinha apenas das suas
garras poderosas, mas do amor que florescia em cada coração, fosse ele
revestido de pelo castanho ou de pelugem alaranjada.
E foi assim que a lenda de Boris, o Urso Protetor, se espalhou para além dos
limites da floresta, enchendo-se de histórias sobre o urso gentil que escolheu
a compaixão em vez da crueldade, contada pelos uivos dos lobos, sussurrada
pelos ventos da montanha e cantada pelas águas dos ribeiros. As raposas,
por sua vez, aprenderam que é possível encontrar amigos nos lugares mais
inesperados, e, nem sempre aquele que mais parece diferente de nós,
realmente o é... E por todo o reino selvagem passou a ecoar uma mensagem
simples, mas profunda: mesmo na solidão mais gelada, o calor da amizade e
da compaixão pode transformar até o mais temível predador no mais dedicado
dos companheiros.
— João Edgar Silva
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