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Guardiões da Lua

 


Pintura "Guardiões da Lua"
Dimensões:29x38cm
Acrilico sobre tela
Valor: Vendido

Numa época antiga, antes das estrelas terem nomes e o céu estar mapeado pelos homens,
a lua governava os céus com a sua presença silenciosa e discreta, todavia, sempre em tom
majestoso, refletindo a luz de mistérios e segredos esquecidos. Dizia-se que a lua não era
apenas uma esfera brilhante, mas um portal para mundos que os olhos humanos jamais
poderiam contemplar, e aqueles que cuidavam desse portal, os guardiões, eram seres
alados de uma magia antiga, invisível ao olhar comum... conhecidos através das lendas
como os “Guardiões da Lua”.
Durante o dia, eles permaneciam escondidos, misturados entre as flores, as folhas das
árvores e os ramos mais altos das florestas antigas. Só à noite, quando o crepúsculo se
despedia e o primeiro brilho da lua aparecia, é que estes pequenos seres emergiam,
prontos para cumprir o seu dever. À primeira vista, não pareciam lá assim muito especiais
ou poderosos, talvez fruto do seu pequeno tamanho, mas na realidade, tinham a
capacidade de voar com a brisa, quase impercetíveis, e a sua ligação à lua, conferia-lhes
um poder sobre os mistérios da noite que apenas alguns sabiam.
Numa noite em particular, em que a lua estava mais cheia e brilhante do que nunca, quase
como se tivesse algo a anunciar, os guardiões, com as suas asas translúcidas, surgiam
entre os ramos, observando o grande astro branco com uma reverência que só eles
conheciam. Eles sabiam que a lua não era somente mais uma “luz”, mas sim um coração
palpitante, que mantinha o equilíbrio entre o mundo visível e o invisível.
Cada folha que eles tocavam, cada raminho onde pousavam, estava impregnado de uma
magia suave e antiga, as cores das árvores, vibrantes em verdes, amarelos e vermelhos,
tornavam-se mais intensas à medida que os guardiões passavam, como se absorvessem a
essência da noite.
No entanto, naquela noite, algo estava diferente: o vento sussurrava entre as folhas de
forma estranha, e as nuvens que corriam pelo céu, pareciam carregadas de presságios! Os
guardiões sentiam que algo estava prestes a mudar... Eles tinham uma missão que
transcendera gerações: proteger a lua de qualquer ameaça, visível ou não. E nessa noite,
pressentiam que o que estava por vir, não só seria diferente, mas o início de uma nova
era...
Os mais antigos dentre os guardiões recordavam-se de lendas passadas, uma vez a cada
centênio, um evento cósmico ocorreria, algo que poderia deslocar o delicado equilíbrio entre
o céu e a terra! Nesses momentos raros, quando a lua estava no seu ápice, um portal
poderia abrir-se para outro mundo — um reino de sonhos, onde o tempo fluía de maneira
diferente e onde a noite era eterna.
Enquanto os pequenos seres pairavam em torno das folhas, um deles, o mais jovem dos
guardiões (florlino) ouviu o chamamento. Uma voz suave, quase um murmúrio nas sombras,
que vinha nada mais nada menos do que da própria lua. Ele sabia que era suposto não
ouvir nada, mas o chamamento era tão irresistível, que as suas asas começaram a tremer
de excitação... e então, guiado pelo instinto, voou mais alto, até que ficou suspenso entre o
brilho lunar e as sombras das nuvens.
Ao aproximar-se da lua, viu algo que nunca esperara, havia um pequeno rasgo na
superfície lunar, uma fenda onde a luz se desvanecia, como se alguém tivesse rasgado o
tecido da própria realidade. Sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo inteiro! O portal abria-se
diante dos seus olhos, por momentos, chegou até a duvidar dos seus próprios sentidos,
mas tudo no seu corpo lhe dizia estar perante um evento real.
De imediato, os outros guardiões reconheceram o perigo e prontamente se reuniram! Se
escutássemos com atenção, poderíamos sentir as suas asas a bater com urgência,
enquanto planavam ao redor da fenda crescente. Eles sabiam que, se o portal se abrisse
completamente, o equilíbrio seria para sempre destruído! E o mundo dos sonhos, um reino
de caos absoluto onde o tempo não tinha lógica, permanência ou sequer sentido,
preparava-se para invadir o mundo real!
Com uma determinação silenciosa, formaram um círculo ao redor da grande lua, as suas
asas emitiam um brilho ténue, ecoando a luz do astro. Os guardiões mais experientes
começaram a entoar cânticos antigos, melodias esquecidas que apenas a sabedoria da lua
era capaz de entender. O jovem guardião, ainda assustado com o que testemunhara,
juntou-se ao coro, sentindo a magia fluir através dele, como um chamado para uma missão
que não conseguia recusar...
A batalha que se seguiu não foi uma de espadas, arco e flecha ou outras armas, mas de
vontade e poder ancestral. As nuvens ao redor começaram a rodopiar, como se o próprio
céu estivesse a responder ao chamamento dos guardiões, levantou-se um vento tão forte
que parecia cantar uma música zangada, e feixes de luz que explodiam por toda a parte
agora, como se se encontrassem numa dança em espiral enlouquecida! A fenda na lua
hesitava, ora expandindo-se ora recuando, enquanto os pequenos seres persistiam no seu
cântico com foco total.
Durante minutos, que pareceram horas, dias, eternidades para lá infinito, a tensão
permaneceu, o vento continuava a rodopiar, e as folhas nas árvores erguiam-se e
dançavam loucas como se partilhassem do medo dos guardiões. Mas finalmente, com um
último esforço coletivo, o portal começou a fechar, a fenda foi selada, e a lua voltou ao seu
brilho pacífico, como se nada tivesse acontecido.
Os guardiões, exaustos, desceram suavemente de volta às árvores para um merecido
descanso. Sabiam no seu íntimo que tinham cumprido o seu dever, mesmo que ninguém
estivesse lá pra ver, mas também sabiam que aquilo era apenas o início... A lua, agora
restaurada, continuaria a ser protegida, mas os sinais do que estava para vir eram claros. O
mundo invisível estava mais perto do que nunca, a rondar a alegria e a sanidade dos
mortais, e eles, teriam de estar sempre vigilantes, atentos ao perigo, tentando adiar o fim de
tudo! Mas por agora, uma doce cama os esperava com os braços abertos para os receber...
No final da noite, enquanto os primeiros raios de sol despontavam no horizonte, os
guardiões voltaram ao seu descanso entre as folhas, invisíveis e silenciosos, aguardando o
próximo chamamento da lua, afinal, eram os seus guardiões, e a sua missão, era um pacto
para a vida.

João Edgar Silva







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